8. ARTES E ESPETCULOS 15.5.13

1. LIVROS -  O OUTRO LADO DO JOGO
2. TELEVISO   PRECISO ATUAR COM F
3. TELEVISO  ALGUM VESTE A CARAPUA?
4. CINEMA  ATOR-REVELAO DEPOIS DOS 50
5. VEJA RECOMENDA
6. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
7. J.R. GUZZO  PREZADO SENADOR

1. LIVROS -  O OUTRO LADO DO JOGO
As peladas, jogos informais que parecem brotar do cho  seja ele de grama, areia, asfalto ou barro , so tema de uma reportagem e de um livro de fotos 
ALEXANDRE SALVADOR

     Innsbruck, ustria. Enquanto as selees da Espanha e da Sucia se digladiavam dentro do Estdio Tivoli-Neu pela nica vaga na fase seguinte da Eurocopa de 2008, o maior torneio de selees da Europa, outra disputa ocorria do lado de fora. Os jogadores dessa partida no recebiam salrios milionrios, tampouco eram assediados por grandes clubes. Eram annimos paramdicos e bombeiros que corriam atrs de uma bola em um campo improvisado em meio a ambulncias e carros de resgate. Vestidos com seus inconfundveis macaces fluorescentes, no exibiam a habilidade dos craques que disputavam uma taa de verdade a 100 metros dali. Mas compartilhavam a paixo pelo jogo  a mesma paixo que motivou dois autores a rodar milhares de quilmetros atrs dessas partidas inesperadas, improvisadas, informais. Dois lanamentos, coincidentemente complementares, permitem conhecer o universo ao redor desses jogos, que parecem brotar espontaneamente do cho, seja ele qual for: areia, barro, grama ou asfalto. 
     Pelada (traduo de Juliana Lemos: Zahar: 320 pginas: 44,90 reais), da americana Gwendolyn Oxenham, anuncia suas intenes no subttulo: "Uma volta ao mundo pelo prazer de jogar futebol". O livro descreve a partida inusitada entre bombeiros e paramdicos na ustria e fala de uma centena de outros jogos no profissionais. Gwendolyn, uma habilidosa jogadora de futebol universitrio, no se conformou com o precoce fim de sua carreira esportiva, causado pela extino, em 2003, da liga profissional americana em que ela iria jogar. Decidiu ento se juntar a seu namorado, que tambm jogava futebol amador, e a mais dois ex-colegas de faculdade em uma viagem em busca das partidas escondidas em 25 pases da Amrica Central e do Sul, frica, sia e Europa. O objetivo inicial era fazer um documentrio que registrasse uma grande variedade de peladas  tambm conhecidas, ao redor do globo, por picaditos, pick up soccer, kick abouts, sakkas. O filme de fato saiu do script, e foi lanado em 2010. Tambm batizado de Pelada, ele ser exibido no Festival de Cinema de Futebol, o Cinefoot, que acontece de maio a junho no Rio de Janeiro e em So Paulo. No livro-reportagem, Gwendolyn apresenta detalhes que escaparam  lente das cmeras. "Estudei escrita criativa na faculdade. Ento desde o incio eu sabia que, caso o documentrio no desse certo, teria uma outra forma de contar essa histria", disse a autora a VEJA, por telefone.
     S no livro, por-exemplo, sabemos da relao visceral da autora com o esporte, desde a infncia, e dos momentos de alegria e tenso durante a viagem. Para conseguir jogar alguns minutos em um presdio em La Paz, na Bolvia, o grupo teve de atender a uma exigncia inusitada: o lder dos detentos quis a distribuio de panetones a um quarto dos presidirios. No Ir, a equipe, muito suspeita por ser integrada por americanos, quase teve suas gravaes confiscadas pela censura do regime islmico. O burocrata que os interrogou, porm, acabou desarmado pelo entusiasmo com a bola  contou que seu filho era um grande f do clube ingls Manchester United. No Brasil, a turma de Gwendolyn teve a oportunidade de jogar em Copacabana, na favela da Rocinha e na tradicional pelada da madrugada entre garons no Aterro do Flamengo. Mas no ficou restrita ao Rio: tambm disputou uma partida num enorme banco de areia que s aparece na mar baixa na Guarda do Emba, em Santa Catarina, com pescadores e guias tursticos locais. Em solo brasileiro, ainda deu tempo de a autora reencontrar suas ex-companheiras de clube  em 2005, Gwendolyn morou na Baixada Santista por dois meses, jogando pela equipe feminina do Santos. "No recebi nada alm de comida e alojamento. Vim porque me disseram que era aqui que se jogava o futebol alegre", diz. 
     " o maior clich de todos, mas o futebol  o idioma universal", diz o fotgrafo paulistano Caio Vilela, autor de Futebol-Arte do Oiapoque ao Chu (Gro: 260 pginas: 125 reais), que registra peladas nos 26 estados brasileiros, mais o Distrito Federal, em fotos feitas entre janeiro e setembro de 2012. Embora tenha se restringido ao Brasil neste trabalho, Vilela j tirou fotos de jogos informais em 53 pases e planeja lanar outro livro quando chegar  marca de 100 naes. Clicou partidas nos mais variados cenrios, como o Pelourinho, o Corcovado e as cidades histricas mineiras, e corroborou um fato antropolgico: basta uma bola rolar que aparece algum para chut-la. Tambm atestou que gua ou lama at os joelhos no  justificativa para encerrar a pelada, que um par de chinelos com facilidade faz as vezes de luvas de goleiro e que as traves podem ser feitas com pedaos de calamento ou at cocos. 
     Nos relatos da viagem de Gwendolyn, porm, o suposto poder de unio pela bola muitas vezes se provou infundado. H diferenas que nem o futebol consegue resolver. Em Jerusalm, em uma pelada noturna entre rabes e judeus, os participantes deixam claro j de incio que ''jogam uns contra os outros, mas nunca uns com os outros". O jogo acabou em um bate-boca sobre uma bola que teria (ou no) entrado no gol improvisado. No Ir, as mulheres so impedidas por lei de jogar futebol com os homens, ou at de assistir a uma partida masculina. Mas outras situaes, como um campeonato disputado em meio a um lixo a cu aberto numa favela do Qunia, mostram que uma mera pelada pode servir como bem-vinda escapada da dura realidade. E isso vale para todas as condies de vida. Eis o que disse um executivo japons entrevistado nas quadras localizadas na cobertura dos arranha-cus de Tquio: ''Eu trabalho para ganhar dinheiro, s para depois poder chutar a bola. O futebol  crucial na minha vida".

TRAGDIA GREGA NO MARACAN
 difcil lembrar de trauma maior na histria do futebol brasileiro que a final da Copa de 1950, no Estdio do Maracan. A histria da partida  conhecidssima: mesmo abrindo o placar na grande deciso, o Brasil, favorito ao ttulo, acabou por ceder o empate e, a onze minutos do fim do jogo, levou outro gol, perdendo por 2 a 1. Se existe algum a quem no se deu a chance de esquecer o gol da virada uruguaia  o goleiro da seleo, o paulista Moacyr Barbosa. Quarenta anos mais tarde, o jornalista e escritor Roberto Muylaert, testemunha ocular da final de 1950, buscou o arqueiro para dar a sua verso dos fatos. Obteve um relato extenso, registrado no livro Barbosa: um Gol Silencia o Brasil (Bssola; 224 pginas; 37,90 reais), que est ganhando sua segunda edio. O chute que originou o gol s entrou por causa do posicionamento equivocado do goleiro. "Meu corao apertado prenunciava que a coisa seria mais sria", disse Barbosa a Muyiaert, "que aquela partida final se transformaria em tragdia grega com o passar dos anos." Em 1963, Barbosa usou as traves de madeira do Maracan, as mesmas da final de 1950, como braseiro para churrasco. Pouco adiantou. Nos anos 1990, o ex-goleiro se sentiu obrigado at a se mudar do Rio de Janeiro, para evitar perguntas e crticas sobre a final. O livro  tambm uma reconstituio apaixonada do que aconteceu antes e depois dos noventa minutos mais dodos do futebol nacional, da situao poltica e cultural do pas na dcada de 50 e da carreira vitoriosa de Barbosa, eterno campeo pelo Vasco da Gama. , em suma, uma tentativa de ambos, goleiro e jornalista, cicatrizarem de uma vez por todas a ferida aberta naquele 16 de julho de 1950.


2. TELEVISO   PRECISO ATUAR COM F
Kevin Bacon  ateu, mas se tornou discpulo de um culto que seduz Hollywood: a crena inabalvel nas sries.
MARCELO MARTHE

Com uma bagagem de mais de cinquenta filmes, o americano Kevin Bacon poderia usufruir a carreira bem-sucedida no cinema at aposentar-se. Mas, aos 54 anos, o ator acaba de somar-se ao fluxo migratrio dos astros em busca de um lugar na TV americana. Na srie The Following, exibida no Brasil pelo canal Warner e recm-renovada para a segunda temporada, ele  Ryan Hardy, ex-agente em luta contra um psicopata que lidera uma seita assassina. Em entrevista exclusiva a VEJA, de Los Angeles. Bacon explica sua guinada, fala da teoria que o elegeu como o "centro do universo"  e confirma ser ateu. 

O que o motivou a buscar emprego fixo na TV? 
Ainda adoro fazer cinema. Mas o fato  que Hollywood anda produzindo cada vez menos filmes e quase s aposta em arrasa-quarteires baseados em histrias em quadrinhos. Isso torna difcil encontrar papis interessantes para um ator com o meu perfil. Ao mesmo tempo, a TV virou o paraso dos bons roteiristas. As sries so um meio em que eles podem se expressar com mais liberdade e ter controle sobre o resultado de seu trabalho. Para quem atua, portanto, tambm se tornou mais instigante fazer TV do que cinema. Minha mulher (Kyra Sedgwick, protagonista da j encerrada srie criminal The Closer) provou desse gostinho por sete anos e no queria saber de outra vida. 

De que maneira a experincia de sua mulher o influenciou? 
Kyra tinha dificuldade com o excesso de reviravoltas na vida pessoal decorrentes do trabalho no cinema. Para gente tranquila como eu e ela, no  uma vida digna ficar mudando de cidade e de rotina a cada novo filme. Na TV, apesar das inevitveis temporadas em Los Angeles, ela conseguiu mais estabilidade. E o principal: encontrou mais tempo para curtir o trabalho e evoluir dentro de sua personagem. Ao ver a felicidade de Kyra, compreendi que tudo o que ns, atores, buscamos  a possibilidade de nos devotarmos com amor e entrega completa a um papel. Na carreira de um astro de cinema, o que menos se faz  atuar de verdade. O tempo  consumido em esperas, viagens, reunies sem fim e maratonas de divulgao dos filmes. Numa srie de TV, trabalha-se duro o dia inteiro, muitas vezes sem chance sequer de respirar. Nada, no entanto, d mais alegria a um ator do que a ralao no set.  esse tipo de excitao que passei a invejar em minha mulher. Eu me admirava quando ela pedia licena nos fins de semana para se trancar no quarto e estudar os roteiros. Havia uma gratificao especial naquilo. 

Com tanta vontade de fazer TV, por que sua busca pelo papel do ex-agente Ryan Hardy, de The Following, demorou quatro anos? 
Sempre fui criterioso na escolha dos meus papis. Eu s embarco num projeto quando sinto que todas as peas esto azeitadas. Nesse caso, era uma deciso ainda mais assustadora  alis, foi a mais difcil da minha carreira. Para assumir o papel de protagonista numa srie de TV  preciso levar em conta que, se o programa der certo, voc ter de encarar um emprego de longa durao. Ao assinar um contrato de seis anos, eu precisava ter certeza de que no iria me encher daquela histria. Outra razo para a demora  que consumi um tempo exaustivo estudando as propostas que recebi. Eu buscava algo diferente dos personagens que fiz no cinema. No queria adicionar mais um vilo  lista, por exemplo. Alm disso, queria um personagem impelido a fazer altas apostas, pressionado por decises de vida ou morte.

O desafio de sries que investem em conceitos to impactantes  manter a voltagem na segunda temporada. Como alcanar isso em The Following?
Ser protagonista de uma srie implica uma entrega meio religiosa:  necessrio botar f no taco dos roteiristas.  bvio que conversamos muito sobre os rumos da trama e no me furto a sugerir uma mudana de tom aqui ou a troca de uma frase ali. Mas, no final das contas, no tenho controle sobre os desdobramentos da histria. O destino do meu personagem  uma incgnita para mim. Estou nas mos dos roteiristas, e ponto. Boa parte do barato de estar na televiso americana atual reside justamente a. 

Por que as pessoas so to fascinadas por psicopatas? 
Vou sacar uma explicao com base nas minhas prprias teorias sobre psicologia. Tome-se um crime passional. Quando algum chega em casa e encontra sua mulher com outro na cama,  quase compreensvel para o pblico que haja uma reao violenta capaz de produzir uma tragdia. J os psicopatas despertam muita curiosidade porque so movidos por razes alm de nossa compreenso. Do ponto de vista de um ator que interpreta ou contracena com um tipo assim,  um desafio entrar na mente dele. 

Qual foi sua reao quando surgiu a brincadeira dos Seis Graus de Separao de Kevin Bacon? 
Para ser honesto, o primeiro pensamento que me ocorreu foi de incredulidade. Pensei: como algum pode acreditar que um sujeito como eu, um perdedor rematado, tenha conexo com tantos grandes atores? Mas depois relaxei e aceitei. Hoje, ao acordar de manh e me ver no espelho, sempre digo: Ei, cara, voc merece ser o centro do universo". Agora, falando srio: no me importo com nada disso. Quero s fazer bem meu trabalho. 

 verdade que o senhor no acredita em Deus? 
Sim, eu sou ateu. Mas defendo a opinio de que cada um tem o direito de acreditar no que bem entender. No tenho nada contra a religio. 

Enquanto muitos astros se envolvem em escndalos, o senhor sempre teve uma imagem positiva. Qual  seu segredo para lidar com a fama? 
Nunca me preocupei com isso, sinceramente. Desde que iniciei minha carreira, nos anos 70, tento viver um dia aps o outro, sem grandes ansiedades. Se um projeto no vingar, pacincia: vou em busca de um novo trabalho. E sou um sujeito pacato e caseiro. No guardo nenhum segredo escandaloso.


3. TELEVISO  ALGUM VESTE A CARAPUA?
A novela Sangue Bom usa da metalinguagem para espinafrar as celebridades. Nem gente com crach da Globo  poupada.

     Diretor de ncleo responsvel por Sangue Bom, o novo folhetim das 7 da Globo, Dennis Carvalho virou alvo da maledicncia de um artista insatisfeito. Calma, leitor, isso se passa no campo da fico. No captulo do sbado 11, a atriz decadente Brbara Ellen (Giulia Gam) vai justificar assim o impulso que a leva a quebrar uma garrafa de usque na cabea de Carvalho  e ser banida da Globo: "Ele me chamou para o papel de uma atriz decadente numa novelinha das 7 chinfrim escrita por dois autores irrelevantes". A trama da dupla Maria Adelaide Amaral e Vincent Villari mal comeou, mas j exibe uma qualidade: ainda que naquele registro ameno de comdia das 7, a lngua dos personagens de Sangue Bom revela-se bem afiada. H alfinetadas em lugares-comuns do Brasil do Bolsa Famlia. "J que a classe C d as cartas neste pas, vamos confraternizar com a patuleia", disse uma personagem. A metralhadora se volta, sobretudo, contra as pseudocelebridades. As pessoas esto cheias desses bales cheios de nada", diz Maria Adelaide. Brbara Ellen  o resumo de tal pera. Ela teve sete maridos, e quatro de seus cinco filhos so adoes  moda multicultural. Apesar de branqussimo, um deles  descrito pela me como "afrodescendente". "Ela jura que foi a Angelina Jolie quem a copiou, no o contrrio", diz Villari. As farpas no poupam nem a Globo  em breve, Dennis Carvalho em carne e osso ser espinafrado por Brbara. O novelo dentro do novelo, alis, no se esgota na fico: na semana passada, o brao-direito de Carvalho, Carlos Arajo, deixou a direo-geral de Sangue Bom aps ser acusado de agresso por uma assistente e suposta amante. Uma coisa Brbara.
     Embora a metalinguagem no seja indita nas novelas, Sangue Bom chama ateno por se valer do recurso como motor da histria  e num tom mais cido que o usual. Brbara se bate com certa Mulher Mangaba (Ellen Roche, ex-pupila de Silvio Santos), uma daquelas danarinas de atributos avantajados que pululam na TV. Tambm desdenha do pessoal dos reality shows. Os autores juram no ligar para uma questo delicada: o risco de incomodar gente na Globo. "Se as pessoas se irritarem, problema delas. Cada um veste a sua carapua", diz Maria Adelaide. 

BALO CHEIO DE FRIA
Brbara Ellen (Giulia Gam), a caricatura de uma estrela da TV da nova trama das 7: garrafada sem piedade no diretor Dennis Carvalho
 Se voc tivesse me trocado por uma ex-participante de reality show, eu at entenderia. Mas uma mulher-fruta vulgar?
 Por causa do piolho do meu ex-marido eu deixei de fazer Avenida Brasil. Eu, sim, teria sido uma excelente Carminha.

MARCELO MARTHE


4. CINEMA  ATOR-REVELAO DEPOIS DOS 50
O argelino Fellag  o comeo, o meio e o fim do tocante O que Traz Boas Novas.

     Alto, magro e com um cabelo desordenado que sugere uma alma mais potica do que pragmtica, Bachir Lazhar (Mohamed Fellag), cinquento e solitrio, consegue emprego numa escola mdia de Montreal na esteira de uma tragdia. Uma professora se enforcou na sala de aula; foi encontrada por um de seus alunos. Professores e crianas esto no apenas em luto, mas perplexos. Esta  a brecha pela qual Lazhar se esgueirou: nesse momento ningum tem disposio para averiguar fatos, e ele se faz passar por professor experiente, com longa carreira em um liceu de sua Arglia natal. Era, na verdade, dono de restaurante. Os demais pontos da histria que ele conta, entretanto, so verdicos. Ele est, sim, exilado em razo da violncia poltica argelina, que vitimou sua mulher e filhos. Ama de fato a lngua e a literatura francesas  e h algo de ao mesmo tempo amargo e inspirador em o idioma do imprio colonial ser a ponte entre o tumulto do qual ele veio e o pas ordeiro no qual espera conseguir asilo. Por fim, Lazhar realmente preza acima de tudo as crianas que lhe foram confiadas. O que no significa que sempre as compreenda totalmente, ou elas a ele: O que Traz Boas Novas (Monsieur Lazhar, Canad, 2011), desde sexta-feira em cartaz,  uma histria de conexes felizes, dos encontros de mente e esprito que s vezes acontecem entre mestre e alunos. Mas  tambm, na mesma medida, uma histria de exlio, deslocamento e solido  a de Lazhar e a do menino e da menina que se enfrentam silenciosamente acerca de um segredo sobre a professora morta. 
     Sem diminuir o mrito do diretor canadense Philippe Falardeau pela naturalidade com que ele faz essa escola respirar  nas brincadeiras dos alunos, na formalidade de Lazhar que eles tanto estranham, nas trocas ciumentas ou desconfiadas entre os professores, na indignao dos pais quando o mestre ousa criticar seus filhos ,  Fellag o comeo, o meio e o fim (ou a finalidade) do filme. Dramaturgo e ator famoso na Arglia at ter de se exilar, na dcada de 90, Fellag continuou a carreira na Frana, sobretudo no teatro. Mas, para a plateia de cinema,  como se ele estivesse sendo descoberto neste instante, j inteiro, com todo um passado atrs de si, cheio de melancolia mas tambm de uma alegria essencial. O que se tem aqui  uma dessas simbioses invencveis entre ator e personagem, e  a pureza que emana de Fellag que torna to generosa e sem artifcio a deciso de Lazhar de incentivar as crianas a falar sobre a nica coisa em que elas pensam, mas que ningum menciona  a morte em geral, e particularmente a sua sensao de que as circunstncias do suicdio constituem uma agresso direta a elas. Falta esprito prtico ao professor, e a deciso faz a casa cair. A alma, porm, essa sai reconfortada. 
ISABELA BOSCOV


5. VEJA RECOMENDA

DVDs
 ESPERA DE TURISTAS
(AM ENDE KOMMEN TOURISTEN, ALEMANHA, 2007. EUROPA)
 Sem muita ideia do que fazer na vida nem muita preocupao com isso, o jovem alemo Sven (Alexander Fehling) escolhe fazer servio comunitrio para escapar do Exrcito  mas, em vez de ser mandado para a animada Amsterd, como esperava, vai parar na austera Polnia. Mais precisamente em Auschwitz, onde todos os dias turistas chegam em nibus para conhecer o campo de extermnio, hoje transformado em museu. Os poloneses, compreensivelmente, no tm l muito amor pelos alemes: para eles, o ressentimento pela ocupao nazista (e pela dependncia econmica atual)  algo vivo, enquanto para Sven o passado  quase uma abstrao. Nem com os jovens ele consegue fazer amizade. Que dir ento com o velho Krzeminski (o extraordinrio Ryszard Ronczewski), um sobrevivente do campo que mora l desde sua liberao, em 1945, restaurando malas deixadas pelos judeus assassinados e dando palestras nas quais rememora as atrocidades. Recriando sua prpria experincia como voluntrio em Auschwitz, o diretor alemo Robert Thalheim faz um filme pungente, que conquista o espectador silenciosamente.

NO (CHILE/FRANA, 2012. IMOVISION)
 Depois de Tony Manero e Post Mortem, o diretor Pablo Larran completa sua trilogia informal sobre a ditadura militar chilena com este filme arguto, irreverente e sumamente inteligente. Em 1988, depois de quinze anos no poder e compelido pela presso internacional a legitimar (modo de dizer) seu regime, o ditador Augusto Pinochet marca um plebiscito: dentro de um ms, os cidados devero votar "si", por sua permanncia, ou "no", pela sua defenestraco. Trata-se, claro, de um jogo de cartas marcadas. Em tese, cada uma das campanhas ter quinze minutos de TV por dia. Na prtica, o "si" tem 23 horas e 45 minutos. O pessoal do "no" quer falar, no seu tempo exguo, de represso, tortura e resistncia. Mas o publicitrio que eles consultam, Ren Saavedra (Gael Garca Bernal), bate o p: "Isso no vende". Para indignao do "no", Saavedra (um composto de duas figuras reais) bola uma campanha cheia de alegria e arco-ris  a qual ganha tanta trao que termina por derrubar uma das mais violentas ditaduras latino-americanas sem que uma palavra de ordem seja gritada. Os fatos convidam  ironia, mas Larran acrescenta a ela a uma angstia e uma dubiedade que persistem muito alm do filme.

DISCO
ALLADIN SANE: 40TH ANNIVERSARY EDITION, DAVID BOWIE (EMI)
 A foto de um David Bowie jovem, de cabelo laranja, sobrancelhas descoloridas e um raio pintado no rosto aparece pelos corredores do Victoria and Albert Museum, em Londres. Na exposio David Bowie Is Everywhere, em cartaz at agosto, usa-se por todo lugar a imagem da capa de Aladdin Sane. Lanado em 1973, o lbum foi produzido durante a excurso americana da turn de Ziggy Stardust, disco com o qual Bowie deu uma virada em sua carreira ao assumir a persona de um roqueiro aliengena. Ziggy Stardust ganhou uma edio especial no ano passado, e agora  a vez de Aladdin Sane ter sua edio especial remasterizada. O disco traz um conjunto de canes mais roqueiras e agitadas do que as que se ouviam no lbum anterior  como se percebe j na faixa de abertura, a frentica Watch That Man, e na regravao de Let's Spend the Night Together, dos Rolling Stones. O relanamento  uma tima oportunidade para revisitar uma encarnao passada do inquieto Bowie  que, na semana passada, causou certo rebulio entre os religiosos com um clipe que apresenta um padre visitando um bordel.

LIVROS
TIPOS DE PERTURBAO, DE LYDIA DAVIS (TRADUO DE BRANCA VIANNA; COMPANHIA DAS LETRAS; 256 PGINAS; 41 REAIS)
 Eis aqui, na ntegra, Mo, um dos 57 textos compilados em Tipos de Perturbao: "Alm da mo que segura este livro que estou lendo, vejo outra mo, ociosa e um pouco fora de foco  minha mo sobressalente". Assim, isolada, a frase talvez no parea to significativa. No conjunto do livro, porm, percebe-se aqui um procedimento: Lydia Davis ilumina os fatos e objetos mais comuns e cotidianos com a luz penetrante da estranheza. Trata-se de um livro de contos, mas nem todos os textos se enquadram ortodoxamente na categoria: h aforismos, ensaios, uma pardia de texto cientfico. O checo Franz Kafka, obviamente uma referncia para ela, aparece como personagem em um dos contos mais longos. Autora de seis coletneas de contos e de um romance e tradutora dos clssicos franceses Marcel Proust e Gustave Flaubert, Lydia Davis, 66 anos,  uma das escritoras mais respeitadas pela crtica americana. Embora concisa, sua literatura no  imediatamente acessvel. Mas recompensa o leitor com a perturbao prometida no ttulo.

O ANCIO QUE SAIU PELA JANELA E DESAPARECEU, DE JONAS JONASSON (TRADUO DE BODIL MARGARETA SVENSSON; RECORD; 364 PGINAS; 39,90 REAIS, OU 27 REAIS NA VERSO ELETRNICA)
 Depois do sucesso mundial da srie Millennium, do sueco Stieg Larsson, eis aqui um best-seller escandinavo que no pertence ao gnero policial. O romance do tambm sueco Jonas Jonasson  que vendeu milhes na Europa   uma comdia rasgada. O ancio do ttulo  Allan Karlsson. No dia de seu aniversrio de 100 anos, quando se planejava uma grande festa em seu asilo, Karlsson pula da janela de seu quarto (no trreo,  claro) e, de pijama e pantufas, ganha o mundo. Em uma rodoviria, acabar pegando por engano uma mala na qual h uma fortuna em dinheiro  pertencente a uma gangue criminosa, que passa a persegui-lo. Esses eventos se mesclam a vislumbres do passado do personagem, nos quais ele se envolve com as mais variadas figuras histricas (o que tem rendido a comparao do protagonista com o Forrest Gump interpretado por Tom Hanks). Este  um livro leve e  adjetivo talvez estranho para uma obra sueca  solar.


6. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1. A Marca de Atena  Rick Riordan. INTRNSECA
2. O Lado Bom da Vida  Matthew Quick. INTRNSECA
3. A Culpa  das Estrelas  John Green. INTRNSECA 
4. Cinquenta Tons de Cinza  E.L. James. INTRNSECA 
5. Cinquenta Tons de Liberdade  E.L. James. INTRNSECA 
6. Cinquenta Tons Mais Escuros  E.L. James. INTRNSECA 
7. Toda Poesia  Paulo Leminski. COMPANHIA DAS LETRAS 
8. Garota Exemplar  Gillian Flynn. INTRNSECA 
9. O Guardio  Nicholas Sparks. ARQUEIRO
10.   Irresistvel  Sylvia Day. HAMELIN 

NO FICO
1. Sonho Grande  Cristiane Correa. PRIMWIRA PESSOA
2. Casagrande e Seus Demnios  Casagrande e Gilvan Ribeiro. GLOBO
3. Subliminar  Como o Inconsciente Influencia Nossas Vidas  Leonardo Mlodinow. ZAHAR
4. O Castelo de Papel Mery Del Priore. ROCCO
5. O Livro da Psicologia.  Nigel Benson. GLOBO 
6. 15 Minutos e Pronto  Jamie Oliver. GLOBO
7. Sobre o Cu e a Terra  Jorge Berboglio e Abraham Skorka. PARALELA 
8. Carta ao Filho  Betty Milan. RECORD
9. Na Cozinha com Nigella  Nigella Lawson. BEST SELLER
10. O Livro de Economia  Vrios. GLOBO 

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1. Kairs  Padre Marcelo Rossi. PRINCIPIUM
2. Eu No Consigo Emagrecer  Pierre Dukan. BEST SELLER 
3. Uma Prova do Cu  Dr. Eben Alexander III. SEXTANTE
4. S o Amor Consegue  Zibia Gasparetto. VIDA & CONSCINCIA 
5. Metas que Desafiam  Mark Murphy. CLIO EDITORA 
6. Casamento Blindado  Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL 
7. O Monge e o Executivo  James Hunter. SEXTANTE 
8. Desperte o Milionrio que H em Voc  Carlos Wizard Martins. GENTE 
9. Faa Acontecer  Sheryl Sandberg. COMPANHIA DAS LETRAS
10. No se Desespere!  Mario Sergio Cortella. VOZES 


7. J.R. GUZZO  PREZADO SENADOR
 possvel que muitos leitores de VEJA, pelo que se pode concluir da correspondncia que mandam regularmente para a revista, gostassem de enviar ao senador Renan Calheiros a carta escrita abaixo. Tristemente, no tm meios para isso. Poderiam at escrever algo muito parecido, mas jamais receberiam resposta alguma; tambm no dispem de uma pgina na imprensa para tornar pblico o que gostariam de dizer. O texto a seguir  uma tentativa de dar a eles a voz que no podem expressar.

Exmo. Sr.
JOS RENAN VASCONCELOS CALHEIROS
Presidente do Senado Federal, Braslia, DF

Prezado senador.

     V. Exa., como presidente do Senado Federal,  talvez o nico poltico num posto desse nvel, em todo o mundo, que recebeu da populao de seu prprio pas um documento assinado por 1,6 milho de cidados pedindo que renuncie ao cargo que ocupa no momento. Mais raro ainda, j seria a segunda vez, no curto espao de seis anos, que teria de passar pela mesma desventura; na primeira, em 2007, renunciou  presidncia do Senado para no ser cassado, perder o mandato e fical sem os seus direitos polticos por oito anos. No ms de maio daquele ano, a revista VEJA revelou que uma empreiteira de obras pblicas, a construtora Mendes Jnior, pagava 12.000 reais por ms  srta. Mnica Veloso, com quem V. Exa. teve uma relao sentimental e uma filha, e da qual havia se separado. Na ocasio, V. Exa. garantiu que o dinheiro era seu, e que a empreiteira apenas o repassava  srta. Veloso. 
     Naturalmente, prezado senador, ningum entendeu nada: por que raios uma construtora de obras pblicas estaria pagando despesas pessoais do presidente do Senado Federal? Seguiu-se, como muitos ainda se lembram, uma srie de investigaes que o foram levando, como se dizia antigamente, de Ans para Caifs  ou seja, do ruim para o pior. Ao fim, V. Exa. viu-se atolado por acusaes de ter emissoras de rdio em nome de laranjas, emitir notas frias atestando a venda de bois imaginrios, favorecer, em troca de remunerao, uma cervejaria em Alagoas etc. Recebeu seis denncias formais no Senado, e teve de renunciar  presidncia, no fim de 2007, para escapar  cassao do seu mandato, num acordo de cavalheiros com seus colegas de casa. Hoje est de volta ao cargo que teve de abandonar no desespero. 
     Mas o objetivo desta carta no  falar do passado  o que V. Exa. fez j est feito, e no pode mais ser desfeito. O seu futuro, porm, depende exclusivamente do senhor mesmo. Se tomar determinadas decises, apagar tudo o que ficou para trs e trocar por uma biografia brilhante o que hoje  urna folha corrida. Se continuar na toada de sempre, acabar a vida apenas como Renan Calheiros. O caminho para ganhar a redeno  simples  mas, como diz o provrbio chins, todas as grandes obras que existem sob o cu comeam com coisas simples. Bastaria que V. Exa., com o plenrio lotado e, se possvel, em rede nacional de televiso, fizesse um discurso mais ou menos assim: "Jamais, enquanto eu for presidente deste Senado, assinarei o projeto de lei aprovado em abril na Comisso de Constituio e Justia da Cmara dos Deputados autorizando o Congresso, na prtica, a derrubar decises do Supremo Tribunal Federal. Depois que deixar meu posto atual, lutarei todos os dias da minha vida contra esse projeto e qualquer coisa parecida com ele. Isso no  um discurso.  o anncio de um fato que vai acontecer". No dia seguinte, V. Exa. se ver promovido nos meios de comunicao e na opinio pblica a heri da democracia. 
     Isso no vai lhe custar prejuzo nenhum nos seus interesses pessoais. O tal projeto  apenas uma aberrao vinda do PT  prev, por exemplo, que, se o Congresso discordar de uma deciso constitucional do STF, poder convocar um "plebiscito" para resolver a parada, que sero necessrios os votos de nove ministros num total de onze para julgar que uma lei  inconstitucional ou que caber ao Congresso aceitar ou no votos do tribunal que obrigam todos os juzes a obedecer a sua orientao. V. Exa. ficar com a glria de ter matado a cobra antes que ela pudesse morder. Poderia fazer exatamente o mesmo discurso quanto s tentativas de submeter a mdia a "controles sociais" e a outros truques destinados a recriar a censura. J pensou? V. Exa. seria transformado automaticamente, e a custo zero, no grande campeo da liberdade de imprensa no Brasil. Poderia, enfim, liderar qualquer causa em prol da decncia. Oportunidades para isso, como se v, no faltam.


